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Atividade física e cérebro

Ao realizar uma atividade física, quais são as reações e estímulos que o cérebro recebe?

As reações eletroquímicas provocadas pelo exercício físico podem produzir diversos benefícios para o cérebro. Esses benefícios envolvem mudanças na plasticidade sináptica, que é a capacidade do cérebro de modificar e fortalecer suas conexões.

O exercício ativa moléculas e células importantes para a manutenção da plasticidade cerebral, favorece a vascularização do cérebro, melhora o fluxo sanguíneo cerebral e pode contribuir para mudanças funcionais na estrutura neuronal. Alguns estudos também sugerem associação entre a prática regular de atividade física e alterações em áreas cerebrais relacionadas à memória, atenção e aprendizagem.

É importante destacar que, em estudos com animais, há evidências mais claras de que o exercício pode estimular a neurogênese, ou seja, a formação de novos neurônios. Em humanos, essa relação ainda é estudada com mais cautela. Por isso, é mais adequado dizer que a atividade física favorece mecanismos relacionados à plasticidade cerebral, à conectividade e ao funcionamento cognitivo.

O exercício físico também pode aumentar a liberação de neurotransmissores e substâncias relacionadas ao bem-estar, como noradrenalina, serotonina, dopamina e betaendorfinas, principalmente após uma sessão de exercício. Essas substâncias participam da regulação do humor, da motivação, da atenção, da disposição e da sensação de prazer.

A consequência do exercício físico sobre a função cognitiva pode acontecer de forma direta e indireta. De forma direta, ele pode melhorar a circulação sanguínea cerebral, aumentar a oferta de oxigênio e nutrientes para o cérebro e influenciar sistemas de neurotransmissores envolvidos no processamento cognitivo. Isso pode favorecer funções como memória, atenção, velocidade de raciocínio e aprendizagem.

De forma indireta, os benefícios aparecem quando o exercício contribui para a diminuição da pressão arterial, melhora do desempenho cardíaco, controle dos níveis de triglicérides no sangue, melhora da qualidade do sono, redução do estresse e melhora da qualidade de vida. Como o cérebro depende do bom funcionamento do corpo, esses efeitos também podem refletir positivamente no desempenho cerebral.

Alguns estudos com animais mostram que ratos expostos diariamente à corrida apresentaram melhor desempenho em testes de aprendizagem. Esses achados ajudam a entender os mecanismos biológicos do exercício, mas precisam ser interpretados com cuidado quando pensamos em seres humanos.

Um estudo citado na literatura acompanhou 50 homens sedentários e saudáveis, com idade entre 60 e 75 anos. Metade desse grupo começou a praticar atividade física durante uma hora, três vezes por semana, enquanto a outra metade manteve sua rotina normal. Após seis meses, os testes físicos e neuropsicológicos demonstraram que o grupo que praticou atividade física apresentou aumento da capacidade funcional e melhora em funções cognitivas, como memória, aprendizagem, atenção, vigilância, raciocínio e solução de problemas. Também foram observados benefícios como melhora da pressão arterial, desempenho cardíaco, humor, autoestima e qualidade do sono.

De forma simples, podemos pensar no cérebro como uma grande central de comando. Quando o corpo se movimenta, essa central recebe mais estímulos, mais circulação, mais oxigênio e mais “mensageiros químicos”. É como se uma cidade ficasse mais iluminada e com suas ruas funcionando melhor.

Quando há uma quebra na rotina de ir à academia ou de fazer atividade ao ar livre, como o cérebro reage?

Quando criamos uma rotina de atividade física, o corpo e o cérebro se adaptam a esse hábito. A prática regular passa a fazer parte do funcionamento diário, influenciando disposição, sono, humor, produtividade, autoestima e sensação de bem-estar.

Hábitos são comportamentos que, com a repetição, tornam-se mais automáticos. Quando uma pessoa cria o hábito de praticar atividades físicas e também desenvolve outras boas práticas, como alimentação mais equilibrada e sono adequado, fica mais fácil manter esses comportamentos ao longo do tempo.

Por outro lado, quando há uma pausa prolongada, o corpo pode começar a sentir falta desses estímulos. O cérebro não envia uma mensagem direta dizendo “volte para a academia”, mas o organismo pode demonstrar sinais de que a rotina saudável foi interrompida. Esses sinais podem aparecer como indisposição, piora do sono, alterações de humor, redução da motivação, queda da concentração, baixa produtividade e sensação de cansaço.

É como o painel de um carro. Ele não conversa com o motorista, mas acende luzes quando algo precisa de atenção. O corpo também pode acender seus próprios sinais quando hábitos importantes são deixados de lado.

Períodos longos sem atividade física podem provocar alguma reação negativa no cérebro?

Assim como todo o corpo é beneficiado por atividades físicas realizadas regularmente, a falta de hábitos saudáveis também pode trazer prejuízos à saúde. Isso inclui o cérebro e toda a sua complexidade.

A ausência prolongada de atividade física, principalmente quando associada a alimentação inadequada, sono ruim, excesso de estresse e sedentarismo, pode afetar o humor, a disposição, a concentração, a qualidade do sono e o equilíbrio emocional. Esses fatores não devem ser vistos de forma isolada, pois corpo e cérebro funcionam juntos.

A prática regular de exercícios físicos está associada à proteção da saúde cerebral ao longo da vida. Estudos indicam que ela pode contribuir para reduzir o risco de declínio cognitivo e fazer parte de uma estratégia de prevenção de doenças crônicas e neurodegenerativas. No entanto, é importante não afirmar que o exercício “previne Alzheimer” de forma absoluta, porque doenças como Alzheimer são multifatoriais e envolvem idade, genética, saúde vascular, sono, alimentação, estilo de vida e outros fatores.

Portanto, a forma mais adequada de dizer é que o exercício físico pode ajudar a proteger o cérebro e reduzir riscos, mas não é uma garantia isolada contra doenças.

Todo o nosso corpo busca equilíbrio. Da mesma forma que sintomas podem aparecer por conta de hábitos prejudiciais, como uso de tabaco, excesso de álcool, alimentação inadequada e sedentarismo, o cérebro também pode sofrer os efeitos da ausência de estímulos saudáveis.

Baixa autoestima, sintomas depressivos, baixa produtividade, alterações de humor, piora da qualidade do sono, indisposição, dificuldade de foco e queda na concentração podem estar relacionados a vários fatores, e a falta de atividade física pode ser um deles. Por isso, não é preciso esperar uma mensagem mais clara para voltar a cuidar do corpo.

Muitas pessoas procuram atividade física pensando apenas na saúde corporal ou na estética. Porém, o cérebro também se beneficia do movimento. Corpo e cérebro não devem ser tratados como partes separadas. O cérebro faz parte do corpo e também sente os efeitos da falta de hábitos saudáveis.

Existem muitas atividades físicas disponíveis com baixo custo ou até sem custo, como caminhada, corrida, dança, exercícios ao ar livre e atividades em casa. Para adultos, a Organização Mundial da Saúde recomenda pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada, o que pode ser dividido, por exemplo, em 30 minutos por dia, cinco vezes por semana. Também são recomendados exercícios de fortalecimento muscular em pelo menos dois dias da semana.

Para quem está começando, não é necessário iniciar com treinos intensos. O mais importante é sair da inatividade e construir uma rotina possível.

A intensidade do exercício influencia o cérebro?

Estudos mais recentes mostram que diferentes intensidades de exercício podem influenciar o cérebro de maneiras distintas. Um estudo publicado em 2019 utilizou ressonância magnética funcional em estado de repouso, uma técnica não invasiva que permite observar a conectividade cerebral.

Nesse estudo, os pesquisadores observaram que exercícios de baixa intensidade podem influenciar redes cerebrais relacionadas ao controle da cognição e ao processamento da atenção. Já exercícios de alta intensidade parecem ativar mais redes envolvidas no processamento afetivo e emocional.

Isso não significa que uma intensidade seja melhor do que a outra em todos os casos. Cada tipo de exercício pode trazer benefícios diferentes. Caminhadas, treinos leves, musculação, dança, corrida, bicicleta e outras práticas podem contribuir para a saúde, desde que sejam feitas com segurança e de acordo com as condições de cada pessoa.

A falta de exercício ou pausas muito prolongadas podem reduzir a oportunidade de estimular essas redes cerebrais ligadas à cognição, atenção, emoção e bem-estar. Esses estímulos são importantes tanto para o cotidiano quanto para o envelhecimento saudável.

De forma simples, podemos imaginar que exercícios diferentes acendem luzes diferentes no cérebro. Uma caminhada pode ajudar a organizar os pensamentos e melhorar o foco. Um exercício mais intenso pode ajudar na descarga emocional e na sensação de energia. Ambos podem ter seu papel dentro de uma rotina saudável.

Como driblar os estímulos para não se exercitar?

Mesmo sabendo dos benefícios, muitas pessoas encontram dificuldades para manter a rotina de exercícios. Isso acontece porque o cérebro tende a economizar energia e repetir comportamentos já conhecidos. Por isso, criar estratégias simples pode ajudar.

Uma boa alternativa é ter um calendário visível para acompanhar a frequência das atividades. Registre os dias em que você fez ou não fez exercício. Dessa forma, ao final da semana, você consegue olhar para trás e perceber o que conseguiu cumprir e o que precisa ajustar.

É bem provável que os padrões de uma semana se repitam na próxima. Por isso, esse registro serve como parâmetro para organizar melhor a agenda, identificar dificuldades e planejar mudanças.

Outra estratégia é convidar alguém para participar. Se você é casado, pode chamar seu cônjuge. Se é solteiro, pode combinar com amigos. Se tem uma família maior, existem atividades que podem ser feitas em conjunto. A presença de outras pessoas ajuda na motivação, principalmente nos dias em que a disposição está menor.

Também é importante começar devagar. Muitas pessoas criam metas muito grandes e acabam desistindo. Sonhe com um objetivo, mas transforme esse objetivo em passos possíveis. Se a meta for perder peso, melhorar o condicionamento ou ganhar mais disposição, estabeleça um plano realista e pense nas estratégias diárias necessárias para chegar lá.

Registrar esse planejamento faz diferença. Pode ser em papel, em lembretes digitais, em uma agenda ou até em um quadro visível. Quando o objetivo fica registrado, ele deixa de ser apenas uma ideia distante e passa a se tornar uma direção concreta.

O segredo não é começar perfeito. O segredo é começar possível.

Conclusão

A atividade física produz estímulos importantes para o cérebro. Ela pode melhorar a circulação sanguínea cerebral, favorecer mecanismos de plasticidade, influenciar neurotransmissores relacionados ao bem-estar e contribuir para funções como memória, atenção, aprendizagem, humor e qualidade do sono.

A ciência mostra que o exercício físico é um aliado importante da saúde cerebral, mas é necessário comunicar isso com cuidado. Ele não deve ser apresentado como uma solução mágica nem como garantia absoluta contra doenças. Ainda assim, seus benefícios são consistentes quando praticado de forma regular e associado a outros hábitos saudáveis.

Movimentar o corpo também é cuidar do cérebro. Cada caminhada, treino ou atividade ao ar livre pode ser um estímulo positivo para a saúde física, emocional e cognitiva.

Referências

TOMAZ, C. Memória e atividade física. 2006;14(77):101–108.

SCHMITT, A.; UPADHYAY, N.; MARTIN, J. A.; ROJAS, S.; STRÜDER, H. K.; BOECKER, H. Modulation of Distinct Intrinsic Resting State Brain Networks by Acute Exercise Bouts of Differing Intensity. Brain Plasticity, 2019;5(1):39–55. DOI: 10.3233/BPL-190081.

ANTUNES, H. K. M. A influência do exercício físico aeróbico em funções cognitivas e viscosidade do sangue de idosos normais. São Paulo, 2003. Dissertação de Mestrado — Escola Paulista de Medicina.

WORLD HEALTH ORGANIZATION. WHO guidelines on physical activity and sedentary behaviour. Geneva: World Health Organization, 2020.